A era do entorpecimento

DepresyonNinguém gosta de sofrer*. Isso é um fato. A dor, a angústia e a incerteza assolam nossos corações e vidas de maneira que é até difícil de explicar. Inúmeras e incontáveis são as suas causas. Desde coisas ordinárias, como perder algum objeto pelo qual temos grande apreço; passando por situações mais significativas, como a morte de um ente próximo ou uma traição devastadora; todos experimentamos, todos os dias, a realidade de que o mundo em que vivemos não é perfeito. As pessoas são pecadoras. Elas não cumprem nossas expectativas, nos machucam, podem até nos destruir. Nós somos pecadores. Nós não sabemos lidar com situações de pressão, com o incômodo de outros à nossa zona de conforto, com a intrusão de indivíduos que nos desagradam. Somos agressivos e agredidos. Afligimos e sofremos. Tão certo como o dia vem depois da noite, a angústia virá de uma forma ou de outra. Isso tudo faz parte da vida diária. Ninguém pode escapar disso.

Nossa era tem tentado escapar disso. Sem dúvidas ela não é a primeira. Sempre o fizemos, sempre o faremos. Entretanto, poucas vezes tantos recursos estiveram à nossa disposição para nos auxiliar a cumprir essa missão. Tem alguma dúvida disso? Veja o crescimento na indústria farmacêutica da venda de calmantes e outros remédios que possibilitam amenizar a ansiedade, a angústia, a dor e o sofrimento. Observe a quantidade imensa de séries de TV que são lançadas semanalmente, as quais são acompanhadas por muitas pessoas em grande parte do mundo. É surpreendente (e quem me conhece sabe que me enquadro aqui perfeitamente) como as pessoas conseguem acompanhar um sem número de séries, estando sempre inteiradas dos últimos lançamentos. Fale com um psicólogo sobre o avanço de sua profissão, sobre a quantidade crescente de pessoas que estão no divã, buscando alívio para seu sofrimento emocional, pagando consultas e mais consultas em busca de sanar os problemas de sua alma. Converse com um bom psiquiatra e questione se a demanda dele tem diminuído ou aumentado — melhor, ligue e pergunte quanto custa uma consulta, para medir a valorização que o mercado tem dado a esse profissional. Olhe para parte da “igreja” contemporânea, com sua teologia da prosperidade e seu falso deus que promete alívio instantâneo e imediato para todos os seus problemas terrenos, garantindo prosperidade aqui e agora. Converse com cristãos que consideram que demônios, pecados escondidos, encostos e afins são as únicas explicações para aquela dificuldade que o irmão na igreja está passando. Observe o aumento no fluxo de gastos com entretenimento em geral. O negócio da diversão está em alta! Novos video games são lançados todos os dias. Os celulares possibilitam acesso imediato, de qualquer lugar, a distrações das mais variadas, do mundo real para inúmeros universos paralelos.

I do marathons

I do marathons

A maioria das coisas mencionadas acima não são, em si, ruins. Pelo contrário, são bênçãos do nosso Deus. Remédios devem ser receitados para pessoas doentes. Séries e lazer são fontes de alegria providenciadas pelo próprio Senhor. Psicólogos e psiquiatras são profissionais que merecem grande respeito de nossa parte, não existindo demérito algum em consultá-los. O problema é quando cada uma dessas coisas é desviada do seu propósito original para serem utilizadas como instrumentos de entorpecimento da mente, com a finalidade de fugir da necessidade de enfrentar a vida e assumir responsabilidades. A maioria das pessoas talvez não veja assim ou não perceba isso, mas é muito mais fácil simpatizar com os problemas de personagens distantes de nós, presos em mundos alternativos irreais, do que enfrentar os nossos problemas diários. A síntese de vidas em temporadas de 20 episódios de 45 minutos preenchidos de ação e intrigas é, via de regra, muito mais dinâmica do que a realidade da nossa vida, marcada por 365 dias que têm 1440 minutos bastante rotineiros. Assim, em 10 séries diferentes, podemos compartilhar de 10 contextos diferentes (e inexistentes), para nos desviarmos do nosso contexto, que é bastante real, marcado por problemas reais, de pessoas reais. Esse é, sem dúvidas, um dos meus dilemas diários. Quando eu era criança, meu escapismo era semelhante, mas sem séries de TV. A imaginação ditava os roteiros que me levavam para mundos nos quais meus pecados e os pecados daqueles ao meu redor não podiam atingir a mim ou as pessoas próximas a mim.

Entretanto, a vida não é assim, não pode ser assim e não deve ser assim. Os que passam pela vida dessa forma pouco vivem de fato. Como um motorista em alta velocidade em uma rua de nossa cidade, pensam desviar de um buraco, mas acabam atingindo outros maiores, que causam danos mais sérios. Pensam que assim poderão passar pela vida, mas a realidade é que a vida passa, as más escolhas perduram, o sofrimento permanece e cada vez serão necessárias maiores doses de remédios, séries, sessões, falsos evangelhos e afins, em um ciclo que irá terminar somente com a morte. Aquilo que era bênção pode virar maldição. E, no momento final, pode ser que a infelicidade maior e inescapável venha, a realidade do eterno sofrimento, preparado para aqueles que escolheram ignorar o criador e redentor do universo. Nesse ínterim, famílias são destruídas, cônjuges são deixados de lado, filhos são negligenciados, amigos são esquecidos, trabalhos são abandonados e a existência vai escapando como a água entre os dedos de uma mão aberta. Como tudo isso é triste e como é triste ver isso acontecendo diariamente.

“Na minha angústia clamei ao Senhor; e o Senhor me respondeu, dando-me ampla liberdade.” Sl 118.5

A boa notícia é que a vida não precisa ser assim. No primeiro sermão da série mencionada abaixo, “Angústia nos Salmos”, o pastor Allen Porto apresentou três aspectos importantes acerca da angústia, ao pregar no texto de Sl 38: [1] a angústia é parte da vida humana: precisamos entender que o sofrimento e dor fazem parte da realidade desde que o mundo caiu, conforme nos relata o terceiro capítulo de Gênesis; [2] a angústia revela nosso coração: quando as aflições nos movem, elas revelam o nosso coração e expõem aquilo que de fato está dentro de nós, sendo um momento propício e providencial para que possamos nos conhecer melhor, entendendo o que realmente pensamos acerca do mundo ao nosso redor e, mais fundamentalmente, qual o estado do nosso relacionamento com Deus; [3] a angústia é o campo onde encontramos o Senhor: quando passamos pelo vale da sombra da morte, nós podemos conhecer mais plenamente o Deus amoroso que está ao nosso lado, caminhando conosco, possibilitando que o atravessemos para que alcancemos a Casa do Senhor, onde habitaremos para sempre em paz e harmonia.

Ademais, quando penso em sofrimento, três passagens bíblicas me vêm à mente. A primeira passagem é a de Jesus no Getsêmani, especialmente os versos 38 e 39 do capítulo 26. Cristo começa dizendo que sua alma estava “profundamente triste até à morte” e depois clama “Meu Pai, se possível, passe de mim este cálice! Todavia, não seja como eu quero, e sim como tu queres”. Nesse trecho, vemos Cristo no momento imediatamente anterior à sua morte e crucificação. Sua alma estava muito triste e angustiada, pois era plenamente ciente daquilo que estava por vir, o pleno derramar do cálice da ira de Deus sobre ele. Essa passagem me lembra que Cristo passou por um sofrimento indizível, imerecido e incomparável em meu lugar. Por causa do sofrer de Cristo, eu não precisarei sofrer eternamente pelos meus pecados, pelos atentados constantes que cometi e cometo contra o santo Deus. Como Isaías profetizou: “Ele [Cristo] foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados” (Is 53.5). Cristo sentiu plenamente a ira de Deus, sem nenhum tipo de entorpecimento para minimizá-la. Ele sentiu isso para que nós não precisássemos sentir, para que tivéssemos paz eterna. Diante do sofrimento de Cristo e dessa paz eterna prometida, meu sofrimento temporal toma nova perspectiva.

A segunda passagem que me vem à mente é a de Rm 8.28: “Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito”. Ao lembrar desse texto, fixo na mente a realidade de que o sofrimento que sinto, a angústia que me aflige, a dor que tira meu sono e as dificuldades que me acompanham, são, em última análise, instrumentos na mão de Deus para o meu bem. Em nossa visão limitada, não costumamos perceber as coisas assim, entretanto o Deus eterno — cuja visão é perfeita, que enxerga a realidade em todas as suas nuances e controla todas as coisas com sua mão poderosa — nos dá essa promessa, registrada pelo apóstolo Paulo. Isso deve consolar nosso coração em meio às tribulações diárias pelas quais passamos, cientes de que elas têm um propósito determinado por Deus para o nosso bem.

Por fim, existe uma promessa profunda que constantemente preenche o meu coração quando as lágrimas escorrem dos meus olhos em meio às incertezas dessa vida: “Porque para mim tenho por certo que os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória a ser revelada em nós” (Rm 8.18). Esse versículo subverte toda a lógica comum em torno das tribulações. Em meio à dor, tendemos a pensar que ela nunca passará, que ela é insuportável e incomparável. Paulo nos mostra, em primeiro lugar, que o sofrimento que temos hoje, por maior que seja, por mais profundo que doa, por mais que nos faça lamentar, não se compara com a glória, majestade e magnitude que será revelada em nós no porvir. Ele nos ensina que, em comparação com o que teremos, o que experimentamos hoje é muito pequeno. A segunda coisa que Paulo nos mostra diz respeito ao tempo. Hoje, por mais longo que seja nosso sofrimento, ele é, na realidade, curto. O tempo presente é breve se visto da perspectiva da eternidade. Paulo está dizendo para olharmos nosso sofrimento atual tendo em vista a eternidade de glória que experimentaremos, em virtude da obra de Cristo na cruz.

Nenhuma dessas realidades apaga o fato de que existe sofrimento, dor e miséria em nossa humanidade caída. Continuamos chorando, tendo dúvidas, enfrentando dificuldades e sofrendo — de forma real, com tristeza profunda e verdadeira. Entretanto, podemos enfrentar tudo isso de uma forma completamente diferente. As dores por que passamos não simplesmente fazem parte da nossa vida, mas colaboram para nosso bem. As angústias que experimentamos são profundas, mas rasas se vistas com uma perspectiva que contempla a eternidade. Os sofrimentos limitam nossa paz hoje, mas o sacrifício de Cristo garante a nossa paz eterna.

“Que diremos, pois, à vista destas coisas? Se Deus é por nós, quem será contra nós? Aquele que não poupou o seu próprio Filho, antes, por todos nós o entregou, porventura, não nos dará graciosamente com ele todas as coisas?” (Rm 8.31-32)

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*No dia 16 de agosto, começou uma série nova de sermões dominicais em nossa congregação: “Angústia nos Salmos: quando a aflição e a espiritualidade se encontram”. Muito do que será tratado neste texto irá ecoar o que foi pregado nesse sermão introdutório. Ele encontra-se disponível aqui.

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